O Problema
Em mais de dez anos de aulas de saxofone que dou por aí a fora, percebi uma constante nos estudantes de sax, a saber, o desprezo pelos extremos do instrumento, às vezes porque acreditam que não são utilizados, às vezes porque acreditam que não são possíveis de ser utilizados, às vezes por preguiça mesmo, e outras razões mais.
Porém, se pegarmos um solo de saxofone de um grande saxofonista, não importando qual ele seja, perceberemos que o clímax desse solo quase que cem por cento das vezes é uma nota aguda. Os agudos são muito importantes, assim como os graves.

Grandes Saxofonistas
Quanto aos graves, vemos os grandes brincando com essas notas como se fossem muitíssimo fáceis, fazendo solos e mais solos, utilizando o subtone, ou o som real, e também produzindo momentos fantásticos em seus solos nessa região.
A verdade é que a tessitura do saxofone é muito curta. Desde a região um (do Bb até o C grave), passando pela região dois (do D sem registro até o C# sem registro), chegando à região três (do D com registro até o C# agudo com registro), e atingindo as três marias na região quatro (do D das três marias até o F# das três marias), temos, olhando assim, duas oitavas completas e dois pedaços incompletos de oitavas. Não chega nem a três oitavas na tessitura normal do sax.
A Razão
Isso é muito relevante, pelo fato de que a música é formada de contrastes, os contrastes entre grave e agudo formam os significados musicais mais expressivos, e se não conseguimos fazer grandes contrastes não conseguimos nos expressar com grandiosidade no saxofone.
O que ocorre com muitos saxofonistas é que se acostumam a manter-se na região central, e escondem quando não evitam as notas extremas. Esse primeiro hábito gera uma incapacidade muito grande de se expressar, pois havendo só notas médias qual o contraste que vamos produzir?
Outros desenvolvem literal pavor das regiões agudas, e rezam o tempo todo para que a música nunca chegue lá. A maioria sequer conhece os chaveamentos dessas regiões, e muito menos as técnicas de voicing, de coluna de ar e também de embocadura para tirá-las com maior facilidade.

Medo dos Graves
Há músicos cujo trauma é tamanho que chegam a se emocionar quando conseguem tirar as notas graves, ou os agudos com maior presteza. A maioria dos músicos sequer passa do D2 para baixo, outros sequer chegam ao D4 por medo das três marias. Outros ainda chegam nessas regiões com um timbre completamente diferente, estourado para os graves e espremido para os agudos.
O procedimento de aprender a tocar essas regiões passa em primeiro plano pela consciência de que são regiões importantes. O fato de alguém não as utilizar não significa que elas não sejam importantes, e sim que esse alguém é um saxofonistas faltante.
Os extremos causam tensão, mesmo os graves extremos causam tensão, a tensão é tudo numa música, não concebo uma música que não tenha tensões, ela certamente será uma música pendente, pois a tensão é que provoca o prazer no relaxamento, e os extremos são muito utilizados para esse fim.
Como fazer
Há algumas coisas em comum com as regiões extremas agudas e graves. Primeiro de tudo, ambas exigem maior pressão aérea, e pressão não é quantidade de ar, mas constância. Manter a constância da coluna de ar é ter uma forte pressão. A quantidade de ar passa facilmente se não há pressão, a pressão pode se dar com pouco ou muito ar.
No agudo é importante além da pressão é saber sustentar essas notas na coluna de ar e não na embocadura. Relaxando a embocadura para promover uma maior vibração da palheta, contornando a desafinação no voicing (erguendo a língua, por exemplo), abrindo a garganta para passagem de grande quantidade de ar, e mantendo a pressão aérea como dito acima.
No grave é importante saber diferenciar o som real e seu impacto do subtone e sua maciez. O som real produzido por uma forte pressão aérea (perdeu a pressão perdeu a nota), e também por um relaxamento da embocadura, com uma abertura considerável da cavidade oral (abaixando a língua como se estivesse falando a sílaba OH).

Coleman Hawkins e o Subtone
O processo de se atingir essas notas é semelhante para o agudo e para o grave. Primeiro ligamos cromaticamente do grave para o agudo (nos extremos agudos) e do agudo para o grave (nos extremos graves).
Depois disso promovemos a ligadura com a sustentação de cada nota, devagar, em notas longas. Feito isso promovemos saltos maiores, de quarta, de quinta, para as notas agudas e para as notas graves (do grave para o agudo nas notas agudas, e do agudo para o grave na notas graves) sustentando em nota longa a nota final.
A partir disso é hora de articular as notas, levemente, no agudo e no grave, aos poucos, com um tenuto bem feito para acostumar a articular essas notas sem perdê-las, de leve, para que assim tenhamos sempre essas notas em nossa possibilidade de tocar.
Por fim, do nada, é interessante pegar as notas agudas, e também as notas graves. E praticar isso com o voicing certo, a embocadura correta, a abertura da garganta ideal, e também a pressão aérea forte e constante.
Passar a Usar é Importante
Esta pequena receita (ligar, ligar e sustentar, ligar com saltos e sustentar, articular, atacar as notas diretamente) produz um passo a passo fácil de se cumprir que aos poucos nos conduz ao domínio dessas regiões, fazendo com que consigamos produzir essas notas sem maiores dificuldades.
Posteriormente a isso é importante começar a usar essas notas. Nas músicas, nos solos, nos exercícios, em tudo o que fazemos no saxofone. O fato de nunca nos pormos a utilizá-las não significa que não possam ser utilizadas, certamente serão e serão muito importantes para nossa performance.
Para quem quer aprender exercícios para os extremos do sax, e dominar essas regiões, eu indico o curso VIVAOSAX BÁSICO, que tem no seu programa de matérias a possibilidade certa de você dominar essas regiões sem maiores problemas, com exercícios detalhados e escritos para tanto.
Você vai aprender esta e inúmeras outras habilidades no saxofone para tocar uma música, acompanhar o playback, e também fazer muito sucesso.
Daniel Vissotto






