Como Compor Uma Música ou Improvisar Sobre Ela

Uma Ideia Curta

A composição e a improvisação têm um link todo especial entre elas, vamos começar falando da primeira, a composição. Toda música geralmente começa com uma idéia curta. Essa idéia pode ser uma batida de bateria, um groove no baixo, uma frase curta em um instrumento melódico qualquer, uma levada de piano.

Quando faço músicas eu procuro começa-las por meio de um motivo. O motivo é uma pequena ideia musical completa, ou seja, o mais curto excerto musical por meio do qual eu possa desenvolver uma música.

Buscando o Clima da Música

Antes de mais nada é importante saber qual é o clima que você quer dar à música em questão.  Uma forma de encontrar esse clima é chamando no infinito acervo de um streaming qualquer uma música que expresse, pelo menos de perto, essa sensação.

Dois cuidados precisam ser tomados aqui, o primeiro é para não tomar essa música, ou esse clima como algo a ser meramente transportado, ele é apenas uma inspiração para poder dar o pontapé inicial na sua música.

O Clima

O clima se expressa principalmente na cozinha da música, ou seja, nos instrumentos harmônicos e rítmicos que produzem o acompanhamento do saxofone quando este está solando uma música qualquer.

Outra coisa com a qual precisamos ser cautelosos é o de não fazer uma cópia pura da melodia, ou do motivo da música em questão, na verdade, não é uma questão de copiar, mas de sentir e trazer esse sentimento por características comuns dentro de uma música diferente.

A melodia é diferente, o arranjo é diferente, mas a música traz uma semelhança em termos de sentimento a ser expresso, só de colocarmos uma, ou até umas cinco músicas nesse sentido, diante de nós a coisa fica muitíssimo mais fácil.

Algumas Formas de Diálogo com o Motivo

Voltando ao motivo, como desenvolver o motivo? Há diversas formas de se dialogar com o motivo, em certo sentido, de desenvolvê-lo. Vamos tentar enumerar algumas formas aqui, num rol não taxativo.

O primeiro deles vem pela mera repetição, o simples fato de ter um motivo e repeti-lo logo adiante, já é algo que dialoga com esse motivo, confirmando-o em todos os sentidos diante do ouvinte, isso é muito bom para trazer coesão à frase composta.

Já o segundo aspecto que dialoga com o motivo é repeti-lo em algum aspecto, porém não literalmente, ou seja, fazendo o mesmo desenho, por exemplo, em outra altura da escala, começando com um motivo mais grave e, depois, o mesmo motivo mais agudo.

Isso pode ser repetido em diversas alturas, pois também é um passo que dialoga muito com o motivo inicial, como num trecho da sinfonia número cinco de Beethoven, na qual a música inteira se dá por conta de um só motivo que caminha em toda a escala.

Outras Maneiras

Outra maneira de realizar diálogo, é repetir toda a história varias vezes, e a cada repetição que se faz acrescentar um ponto a mais. Como por exemplo numa brincadeira infantil de memória, na qual se conta um pedaço curto de uma história, e o outro deve repetir o que o primeiro disse acrescentando algo, e assim por diante.

Essa é uma forma de desenvolver o que temos no motivo para além do próprio motivo, o que traz motivos novos, e também desenvolvimentos inéditos, que nada têm a ver com o motivo inicial.

Outra forma de se desenvolver o motivo é criando espelhos. O que é um espelho? É a inversão do motivo inicial ou central da música, como faz Miles Davis em Pfrancing No Blues, começando com um motivo, repetindo o mesmo, depois partindo para a inversão do mesmo num espelho.

Espelhos parciais, espelhos exclusivamente finais, espelhos literais, as opções são as mais variadas, e assim o motivo vai se desenvolvendo em meio à música por meio de desenhos melódicos simples, pois um tema musical não pode ser muito complexo.

Por último o desenvolvimento e a conclusão, no qual temos um desenvolvimento que traz um clímax, podendo ser ele o próprio clímax da música em questão, e esse desenvolvimento não possui nada, ou quase nada a ver com o que vinha antes, para se destacar de tudo como algo especial a ser ouvido.

Já a conclusão é importante que relaxe, e traga algo do início de uma música, como se estivesse retornando ao centro tonal, ou seja, à origem de onde a música saiu, para poder assim, nesse ponto repousar e concluir a jornada.

Ausência de Regras para a Composição e a Improvisação

É preciso entender que não há aqui regras a serem cumpridas, mas apenas uma forma sugerida de como criar uma melodia. De maneira que temos inúmeras outras formas, mas esta é uma das que sempre dão certo, por isso foi escrita aqui.

O que é interessante de se notar é que a improvisação também se dá assim, porém, a improvisação é como uma composição com motivos mais complexos, de sorte que a diferença entre um tema composto e um trecho improvisado, neste aspecto, seria uma diferença de grau.

Sem Regras

Ou seja, a composição é a criação de uma música um pouco mais simples do que a improvisação, que já seria como a execução de uma melodia muito mais complexa do que um tema em si.

A Roupagem da Música

Depois disso é preciso harmonizar nossa música, para tanto é importante conhecer um pouco de instrumentos harmônicos, o que facilitará sobremaneira a visualização da harmonia e de sua aplicação sobre o tema que estamos produzindo.

A partir daí, é impor um clima e uma levada para ela, a levada se dá por meio de um baixo, uma bateria e um ou mais instrumentos harmônicos, são os instrumentos responsáveis pelo como a música vai soar, feito isso temos o esboço de nossa música pronto.

Agora, por fim, basta incrementá-lo com mais instrumentos e um arranjo, dando uma cara nova à música, decidindo quem toca o quê, como e quando, mantendo a essência da melodia e harmonia.

A música a seguir foi uma composição que realizei mais ou menos com esta dinâmica, e da qual me orgulho muito de ter composto. Procure notar que as frases do tema têm realmente essa tônica e também as frases da improvisação, guardando as devidas proporções de grau de dificuldade.

Fazendo assim, temos a nossa música. Essa é uma das inúmeras formas de se produzir uma música nova, embora existam infinitas outras. Você pode ter a sua própria maneira de produzir uma música, esta foi a exposição de uma de minhas maneiras.

Para você que quer criar na música, e também improvisar bem, aconselho aulas com o professor, o que certamente te abrirá a cabeça para inúmeras formas de manifestação musical, para que você tenha como externar tudo aquilo que sente dentro de si da melhor maneira possível.

Daniel Vissotto

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