O pop e o jazz representam dois universos distintos para o saxofonista, com contrastes notáveis em vários sentidos, principalmente técnicos e expressivos. Embora muitas vezes o pop incorpore elementos do jazz, o jazz tradicional enfatiza a improvisação e a complexidade, enquanto o pop prioriza a acessibilidade, repetição e integração em estruturas comerciais.
Os Objetivos
O jazz é um estilo que sempre busca o novo, por isso sempre está se lançando na diferença, na inovação, na experimentação. A maneira que se toca jazz é a maneira de alguém que quer algo novo a cada apresentação, não se preza muito no jazz pelo sentido original da música, pelo contrário, busca-se enriquecê-lo para tornar a música uma expressão mais e mais notável.
O pop pensa de maneira diferente, a música pop geralmente é tocada de maneira idêntica à gravação original, pelo menos é esperado da música pop que seja assim. A inovação e a experimentação não se dão em termos de interpretação, mas de composição. Uma vez composta a música o seu arranjo não costuma variar, conservando a sua originalidade.

O objetivo
O jazz é um estilo de momento. Se o saxofonista toca o jazz em um tempo/espaço diferente, sua apresentação será diferente, ele refletirá o seu momento, a sua interação com o público, enquanto o pop, geralmente, mantém sua originalidade, e busca pelo menos na essência, conservar o arranjo original e sua forma de se apresentar.
No momento em que o jazz se direciona àquele que aprecia a sua complexidade, o pop prioriza melodias simples, que possam ser facilmente absorvidas e cantadas, a clareza e a distinção são sua característica, de forma que no jazz há um estilo mais rebuscado e não tão direcionados para a absorção imediata.
A Harmonia e o Jeito de se Tocar
No jazz, geralmente as músicas possuem uma harmonia mais sofisticada, com acordes de tétrades estendidas, rearmonizações e cadências mais complexas. A grande riqueza do jazz está em refletir essas harmonias. O jazz tem a preocupação de fazer sua melodia soar em meio a harmonias sofisticadas, de forma que, só o reflexo do que a harmonia sustenta já é algo de impressionante.
No pop é diferente, a cadência harmônica é mais simples e estável, com menos trocas rápidas nos acordes, o solo é pensado para encaixar-se numa harmonia acessível e repetitiva. A dificuldade aqui não é refletir as harmonias, mas tocar de maneira sofisticada em meio a harmonias simples, fazer muito com pouco.
Ambas são tarefas difíceis, não defendo, como alguns fazem, que um estilo esteja acima do outro, pelo contrário, entendo que ambos têm sua dificuldade, muitos músicos de jazz não sabem soar bem em meio a harmonias muito simples, e muitos músicos pop, por sua vez, não sabem soar bem em harmonias muito complexas, mesmo porque uma coisa não favorece a outra.
Tão difícil quanto exprimir sofisticação com uma harmonia simples, é conseguir exprimir uma harmonia sofisticada, de forma que, ambos os estilos, pop e jazz, possuem sua particularidade, sua complexidade própria.
O Fraseado
No jazz as frases são mais longas, improvisadas e cromáticas, com uso de escalas bebop, arpejos estendidos e variações rítmicas para criar tensão e resolução. O objetivo do jazz é formar ilusões melódicas interessantes, ricas, complexas e variadas. As escalas utilizadas possuem mais notas com padrões harmônicos cheios de irregularidades e síncopas. O swing está por toda a parte.
Já no pop, as frases são curtas, diatônicas, focadas em motivos cativantes e previsíveis, buscando engajar o ouvinte rapidamente. O swing tem um papel menos importante, ou às vezes inexistente. A escala pentatônica é um eixo nas frases musicais do pop, por ser uma escala de fácil percepção e assimilação. O pop é mais rítmico que o jazz, brinca mais com estruturas rítmicas que brilham no sentido de forma a incrementar suas harmonias simples.

Complexidade
Enquanto um solo de Sonny Rollins, em “St. Thomas”, está cheio de frases irregulares e sincopadas, um riff de sax em “Careless Whisper” de George Michael repete várias vezes, para reforçar o refrão. Durante uma apresentação de jazz, os solos são longos e exigem do saxofonista capacidade de economia e inovação, já os solos da música pop são quase sempre premeditados, condensados e transmitidos de uma só vez, visando ser cantados pelo público.
O jazz baseia-se no sentimento do swing, com uso intenso de cromatismos, escalas bebop e padrões que exploram as tensões das notas dos acordes. Por sua vez, o pop utiliza-se de frases mais diretas, claras, concisas, focadas em escalas pentatônicas e de blues, com forte ênfase em motivos melódicos repetitivos e rítmicos. Algo voltando para o canto do público.
A Embocadura e Voicings
A embocadura do pop é diferente da embocadura do jazz. É preciso ter consciência de que cada estilo utiliza-se de suas técnicas sonoras para poder exprimir som esperado para cada função. Não podemos tocar jazz com sonoridade de pop, e nem o contrário, o ideal é entendermos qual a sonoridade esperada para cada estilo e utilizarmos as técnicas cabíveis.
O jazz utiliza-se de uma embocadura internamente mais relaxada, os voicings são de uma cavidade oral mais aberta, mas solta. Os tons escuros são mais aceitáveis. Enquanto no pop os voicings são mais fechados e consistentes, priorizando clareza de som e brilho, além da potência diante de instrumentos eletrônicos.
A embocadura do pop prefere um voicing mais fechado e a uma abertura de mandíbula maior, para tornar o som mais estridente e brilhante. Enquanto isso, no jazz, a embocadura preza por um voicing aberto e uma abertura média de embocadura, no jazz tradicional o som acaba por soar mais fosco e tranquilo, sendo que no pop ele é mais tenso e luminoso. Isso não é uma regra, mas uma estatística.
Frequentemente utiliza-se no jazz boquilhas com câmaras grandes e aberturas médias largas, buscando um som mais encorpado e versátil, com palhetas mais duras. O pop, por sua vez, utiliza-se das boquilhas mais voltadas para o baffle (rampa interna) alto e câmaras menores, o que aumenta a velocidade do ar e gera um som mais potente e estridente.
Os Efeitos e Ornamentos
No jazz o vibrato é mais variável e terminal (começando sem o vibrato e posteriormente entrando na nota ou frase), a velocidade e a amplitude do vibrato muda conforme o contexto emocional do saxofonista, em baladas toca-se o vibrato lento e largo (como John Coltrane em “Lush Life”), ou ainda um vibrato mais rápido e estreito como em um up-tempo (Charlie Parker em “I Remeber You”).
Não obstante, no pop, o vibrato geralmente é mais contínuo, largo e brilhante, aplica-se desde o início da nota longa criando um som doce e acessível (como Kenny G em “Songbird”). Ou ainda vibratos pesados e uniformes para emoção imediata e bend com vocais (David Sanborn “Smile”). O vibrato, de maneira geral, tem um papel mais presente na música pop.

Ornamentos
O jazz explora microtons e dissonâncias, o pop a melodia pura, perfeita direcionada ao público em geral, o swing no jazz é algo de personalidade, importantíssimo para tudo o que se produz; já no pop serve para reforçar o groove sem roubar o foco da melodia principal.
Tanto em um quanto em outro os ornamentos e efeitos são importantes. No jazz os ornamentos são utilizados para definir a linguagem pessoal de cada artista, enquanto que no pop vêm para dar sabor ao arranjo, sendo que devem ser comedidos, para que o exagero dos mesmos não torne a música irreconhecível.
Conclusão
O jazz valoriza a individualidade e a espontaneidade, enquanto o pop prioriza a acessibilidade, clareza e impacto imediato. Um saxofonista versátil (como David Sanborn ou ainda Kirk Whalum) consegue transitar entre os dois estilos ajustando exatamente esses parâmetros.
Praticar ambos os estilos é muito importante para o saxofonista que quer ter penetração no mercado musical, mesmo que você procure se especializar em um deles, é importante, sempre, ter algo na manga para poder tocar os dois.
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