A Linguagem Em Si
Na fala humana, a linguagem é um sistema de símbolos convencionais (sons, gestos ou ainda símbolos escritos) usados para expressar idéias, emoções, e experiências. Ela inclui elementos como fonologia (sons), sintaxe (estrutura das frases), semântica (significado) e pragmática (o contexto social da linguagem).
Dados da linguística moderna, como estudos de Noam Chomsky na década de 1950 sugerem que há um algo de inato na linguagem, como se antes de qualquer aprendizado houvesse, dentro da natureza uma “gramática universal” compartilhada por todos os homens, permitindo que crianças, por exemplo, aprendam idiomas rapidamente.
Haveriam assim estruturas universais no cérebro humano, como se as regras que regem as frases, fossem subjacentes, e não fruto próprio de padrões observados. Para Chomsky, haveriam assim as estruturas profundas (o significado subjacente) e estruturas superficiais (padrões linguísticos observados).
Já na Grécia antiga (séculos IV–III a.C.) filósofos como Platão e Aristóteles iniciaram estudos sobre a origem da linguagem como uma indagação filosófica sobre a comunicação humana. A dicotomia, afirmando que os nomes são mera convenção ou fruto da natureza, já estava presente nos escritos de Platão como no diálogo Crátilo (Κρατύλος), no qual Sócrates critica ambos os extremos, mas inclina-se a uma posição naturalista moderada.

Aristóteles
Já Aristóteles trata a linguagem de forma mais sistemática e semântica no livro Organon, especialmente no capítulo inicial de Da Interpretação: “As coisas que são ditas na voz são símbolos das afecções da alma; e as coisas escritas, símbolos das coisas na voz. E assim como as letras não são as mesmas para todos os homens, também os sons vocais não são os mesmos; mas as afecções da alma, das quais estas coisas são sinais, são as mesmas para todos; e as coisas das quais estas afecções são semelhanças, também são as mesmas.”
Considerando tudo o que foi dito, em alguma instância, as abordagens que citamos do significado da linguagem se enquadram em uma certa coincidência interessante, pelo menos parcial, de que há no homem sim um fator inato, natural, no qual ele baseia suas convenções, e ao mesmo tempo um fator convencional, que ele deve aprender por observação.
A idéia central é que a linguagem é um instrumento para expressar pensamentos, emoções ou ideias, passando do concreto (a realidade) para o abstrato (símbolos sistematizados).
A Linguagem Musical
A linguagem musical, por sua vez, seria uma extensão desse conceito, com sons organizados em um sistema de elementos como ritmo, melodia, harmonia, timbre, dinâmica etc. estes que têm o poder de comunicar sem palavras literais. Diferente da fala, é mais abstrata, evocando emoções ou narrativas por meio de padrões auditivos.
Por exemplo, um acorde maior pode transmitir alegria, como dizia René Descartes, e um acorde menor pode transmitir melancolia. Joseph Swain, em seu livro Musical Languages (1997), compara a música à linguagem, destacando paralelos como: notas como fonemas, motivos como palavras, entoação como dinâmica, dialetos como estilos musicais, frases musicais como sentenças, emoções como significados.
Desse modo, a música seria uma conversa sem palavras, as harmonias seriam os contextos que enriqueceriam o diálogo. Na fala, a mesma frase pode soar irônica, agressiva, ou afetuosa, dependendo da entonação. Na música a mesma nota pode soar triste, agressiva, sensual ou ainda neutra, dependendo do ataque, do vibrato, do tempo, do contexto harmônico. Interpretar não é “tocar o que é considerado certo”, mas sim “dizer algo” com o som.

Linguagem Musical
O aprendizado de uma linguagem musical não se daria por meio de regras e sistemas, digo pois assim como ninguém aprende a falar apenas estudando simplesmente a gramática (apesar de estudar a gramática ser algo importante), ninguém aprende a interpretar uma música apenas estudando escalas (o que também é fundamental).
A linguagem falada e a musical compartilham a mesma estrutura biológica e cognitiva. Interpretar uma música seria como incorporar uma história em texto com voz alta, se você não respeita as vírgulas (pausas), ou a acentuação das palavras (dinâmicas), o ouvinte não entende a mensagem.
Dessa forma, estabelecendo um paralelo, haveriam estruturas internas do ser humano, suas emoções, seus sentimentos, e tudo o mais, que ele expressa na linguagem musical, e também haveria as convenções musicais que são esperadas, nas quais a linguagem se realiza e por meio das quais transmite sua mensagem.
Ninguém aprende a linguagem se trancando num quarto vazio e esperando a inspiração acontecer, a expressão dos sentimentos depende do fato de que todos precisamos nos imergir na linguagem já estabelecida, para compreender o código por meio do qual vamos transmitir nossa mensagem.
A Linguagem do Estilo Musical
Seria como se fosse um “dialeto” de um gênero, uma gíria específica na qual o gênero se manifesta, o gênero por exemplo poderia ser um jazz ou um funk, ou qualquer outro estilo, dependendo de onde você quer se manifestar.
Por exemplo, no jazz estude com os mestres, como Charlie Parker, Cannonball Adderley, Coleman Hawkins entre outros. Seria como aprender francês numa conversa em um café de Paris, se você não reproduz o sotaque esperado da linguagem a música soa “estrangeira”. Estilos evoluem como idiomas, com influências, é preciso isolar e estudar os grandes mestres dentro dos estilos desejados.

Estilo Musical
Ou seja, devemos estudar com as maiores influências do estilo, seja ele o jazz, o pop, o funk, o gospel etc. Uma maneira de adquirir fluência é transcrever, sem escrever em partituras, os solos, sejam do tema ou do improviso desses grandes mestres, para poder assim evoluir com eles na prática do jargão, do sotaque desses dialetos e assim poder soar naturalmente, como é esperado de um saxofonista dentro de seu estilo.
Ouvir várias músicas de um mesmo estilo é como estar numa escola onde você, por absorsão, em uma escuta ativa, consegue captar a maneira de falar, as palavras a serem ditas, os trejeitos a serem utilizados para que a linguagem soe natural e o mais próximo possível de sua origem.
A Linguagem do Saxofone
Refere-se às possibilidades técnicas que o saxofone oferece para mimetizar o que deve ser dito. Temos que o saxofone pode fazer determinadas coisas, e outras não, há coisas que são mais fáceis no saxofone, e coisas que são próprias desse instrumento. Seria como se fosse um “idioma” específico do instrumento, envolvendo técnicas de embocadura, articulação, voicings, timbre e digitação.
Há músicas e frases que pertencem mais à linguagem do sax, da mesma forma como um cantor não canta todas as músicas que lhe propõem, mas escolhe aquelas que se adaptam melhor ao seu sistema vocal, o saxofonista procura escolher melhor as músicas que toca, para que elas se adaptem aos recursos do saxofone (desde sua tessitura, até os recursos próprios do saxofone, tudo aquilo que ele pode fazer ou não).

Linguagem do Saxofone
Devemos saber que o saxofone é o instrumento que melhor se adapta à expressão da voz humana, ele é uma voz, com todas as suas pequenas formas de se expressar. Precisamos usar isso a nosso favor quando interpretamos, ouvir a linguagem do saxofone é ouvir muito o saxofone, independente de tudo, para entender e expressar tudo o que lhe é possível.
A Linguagem da Música que Vamos Tocar
Seria como o assunto do que falamos. Dentro desse assunto, a música também tem sua linguagem, desde o primeiro lançamento da música em questão, até a gravação de maior sucesso, aquela que habita o ideário do senso comum. É preciso estudar a música, sua história, as contribuições pelas quais ela passou, de forma que possamos entender o que foi dito, o que é dito, e o que queremos dizer a respeito dessa música.
A música tem uma mensagem que é dita através de sua melodia, sua harmonia, seu rítmo, seu arranjo, sua letra etc. É preciso estar consciente de tudo, no sentido de entender exatamente onde estamos colocando nossa mão, para saber minuciosamente o que está sendo dito. Tudo isso influencia a maneira como vamos tocar.
Stan Getz acreditava que conhecer a letra da música ajudava a frasear a música corretamente, transmitindo a emoção correta com o saxofone, funcionando como um cantor em meio à música. Outros faziam isso também, como Dexter Gordon, entre muitos. Isso mostra como é importante conhecer o que estamos tocando.
A Linguagem dos Saxofonistas que Ouvimos
Aqui já temos a maneira própria de cada um se expressar. Cada saxofonista se expressa numa frequência. Embora estejam no mesmo estilo, embora estejam tocando a mesma música, e também estejam tocando o mesmo instrumento, o saxofonista tem sua linguagem própria, sua assinatura.
Uns fraseiam com frases mais longas, outros utilizam ornamentos e efeitos diferentes, e outros ainda tocam com um timbre mais aberto ou mais fechado, as características dos saxofonistas são as mais variadas, e é preciso estar consciente disso para poder saber como se posicionar em meio a uma interpretação.

Linguagem dos Saxofonistas
Nem todos os saxofonistas possuem todos os recursos, nem todos utilizam todos os ornamentos e efeitos, há o “nicho” experimental no qual eles se manifestam e expressam seus sentimentos. É preciso sempre estar ciente de tudo isso para poder ampliar nosso vocabulário e nossos recursos expressivos.
Estudar saxofonistas ativamente é a melhor escola que temos à nossa disposição, independente de tudo, escutar ativamente, mais uma vez digo, tentar transcrever frases, transportá-las em todos os tons, procurar transcrever os solos naquilo que nos é acessível, e falar a linguagem do saxofonista em meio àquilo que ele produz.
Conclusão
Diante do que foi explanado, temos que a linguagem musical é muito relacionada à linguagem humana em geral, precisamos compreender que todos temos um universo interior a expressar, e muito desse universo é comum a cada um de nós. Mas a maneira de nos expressarmos em meio a isso é uma linguagem já estabelecida, convencionada, que temos de pesquisar e absorver. Uma linguagem que se dá por meio do estilo, do instrumento, da música e dos músicos em geral.
É preciso se dedicar a essa busca, para que possamos dessa forma conseguir expressar esses sentimentos de maneira compreensível e esperada em meio ao contexto no qual estamos inseridos. Para você que quer se desenvolver na linguagem musical como um todo, aconselho aulas com o professor. O acompanhamento com um profissional é fundamental para sabermos se estamos dentro ou não da linguagem na qual nos aventuramos a tocar.
Daniel Vissotto





